domingo, 20 de novembro de 2016

eu sou esse momento
sou essa saudade
dos corpos juntos e as mentes mais.
Eu sou a junção do meu e o seu.

Eu sou esses segundos longos que antecedem o pensamento sobre você
e nem conto... Um, dois, três já pensei de novo
e nem quero não pensar.
Um, dois e já não espero o três chegar.

sábado, 1 de outubro de 2016

Houve momentos de desespero em que a alma cansada titubeava
Houve momentos de inferno
e nesses momentos calados, de lençóis molhados de sal dos olhos, ansiava
pela morte dos momentos

O sol havia se posto já fazia dois dias e, assim, nesse processo obtuso,
se pôs de novo sem nem nascer.
E foi aí -> no segundo minuto de escuridão -> que o momento dos infernos
se foi.

E o sol nasceu três vezes no mesmo instante, cê tinha que ver.
Secou os lençóis, deu pra guardar o sal num pote
e temperar o feijão por um mês.

E que feijão bom que rendeu.
Todo mundo comeu.
O coração brasileiro; o corpo do mundo inteiro;
na cabeça, ela, numa praia do Rio de Janeiro
com pés de grão de areia
sereia de calcinha e sutiã

domingo, 25 de setembro de 2016

Dormingo

Dormi no domingo
e sonhei

Foi sonho breve eu sei
mas me peguei dormindo

Reviravolta de pensamento, sabe?
Daqueles de acordar do avesso,
mas o avesso bom de uma coisa boa
Reviravolta que volta pro mesmo lugar
mas melhor

E tem sido assim
no domingo
sorrindo dormindo
no aguardo
sem carregar fardo
só deixando o ano passar

E como passa rápido esse ano...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Pensando em ti, sambei
movi dois pra lá e dois pra cá
e me deixei sorrir só com pensamento

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Samba:

Naquele dia me amou como um qualquer
Mas quando acordou quis ser minha mulher
E eu, sem jeito, fui eleito pra viver ao lado teu
Mas feliz não fui, quisera eu

Das tuas sobras o que sobrou pra mim foi mágoa
Agora entendo, querias uma escada
Mas não te dei sequer nenhum vintém
E agora vivo feliz com outro alguém

Mas tá tudo bem

Sabe, mano, que saudade de prosear cheio de risada
no domingo de tarde frente à tevê sem som.
A gente fala e se ouve e nem vê e quando vê já tem até batuque e violão.
Mas como a tevê, muda, o que eram as coisas antes
agora não são.

Corretor automático

o que está
escrito, sempre
pode ser apagado

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Uma ode à leveza

Que minha existência venha de uma só ternura, de um só movimento singelo e que abrace todos os outros movimentos.
Que meu sonho não seja premeditado. Que exista tão sutilmente quanto existo e que seja longo e breve.
Que a leveza do ser desbanque o mundo insosso que me vendem. Que cale a loucura que comprei nos primeiros vinte anos de vida, e me faça comprar mais quarenta anos de lucidez (mesmo que pareça insana).
Que eu navegue ou voe por mares e céus livres, acompanhado dos poucos e muitos que o fazem sem saber.
Que eu não saiba que navego.
Que meu instinto seja ele, de tal forma que não o perceberei e mesmo assim estarei sendo guiado. Por mim. E por todos.
Que eu seja mar e vento e terra e grama e ao mesmo tempo seja eu e nós.
E que nós sejamos não só e simplesmente palavra, mas um. E leves. E que sejamos breves aprendizes do que já foi e do que será.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A poesia turva do mar chista

Estive pensando na metáfora
Da briga eterna da água
E a areia
No mar

Ele, bravo,
Bate
Incessante, louco
A cada vinte segundos
Nela

E a paz daquela
Aceita
Sabe que quando a espuma
Bate
Nela se mistura
E ela vira mar sem querer

O que sobra mais pra frente
É mais areia que mar
Os dois meio misturados

Mas no fundo
Ela quer que venha
Pra areia, Maria da Penha

sábado, 6 de agosto de 2016

Quando saí da redação fechada de um ar que se condicionou há tempos, sorri.
Caminhei como um ser humano caminha. Leve, sabia que - por algum tempo - não tinha nada por vir.
Andei a cidade, pensei em liberdade - mas não a vivi.
É que tanto tempo trancado, feito rato, experimentado, só me fez questionar:
Que vida é essa que levo, que ficar parado é remédio? Que tenho só um mês em doze para mudar todo o ar?
E de longe, pequenino, aquietei:
Sorte minha que questiono o que questionei. Há quem viva um em doze e morre sem viver, como se fosse lei.

Sexta feira, bar do Chico com o outro Chico e um amigo dele

Sou o velho bebendo no bar
Cicatrizado
De fone no ouvido
Para não ouvir

Se encontro conhecidos
Estranhos velhos amigos
Delicio
Nas histórias que vivi

Sou o vermelho aquecendo o assento
Rubro
Com tampão nos olhos
Para ver

Se me enlouqueço
Levemente padeço
Rio
Vivo pra quê?

Sou a tarde vazia
Maria
Esquentando o feijão
Para não comer

E me entristeço

Sei que mereço
Dilúvio
Nadar
Afogar
e não morrer

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Me desfaço
E me encontro
Desfeito

Feito um tiro
No peito frágil
Lânguido
Ágil
E deito

Me desmancho

E mancho o chão
Com o sangue nosso
Póstumo
Estancado

Hemoglobina

E então desfeito
Arrumo um jeito
Mexo,
Grito,
Clarifico

Ó sangre nostro
Mórbido
Gratifico

E
poético político
Humano fraco fico

terça-feira, 19 de julho de 2016

te amei sozinho, mulher
e ainda amo.

meu costume é abrir essa janela e pensar em você.

e ainda desperto todos os dias com esse costume barato,
insensato,
ilógico,
desse amor que sempre foi só meu.

Até arredo o tempo, meu bem,
penso um pouco,
ponho paciência no jogo,
mas não me aguento...

Meu corpo, falho,
ainda te sente - cheia de roupas e receios.
Meu sexo, frágil, ainda
te aguarda caliente - e cheio de anseios.

O poema da falsa liberdade tardia

Dorme o velho bêbado
na rua
muda

Passa o carro e absorve

O velho dorme

Passos largos no caminho
de volta pra casa que nunca teve
e volta

A revolta longe, já nem lembra.

O que recorda é o velho pesar
a pipa que não voa mais,
nem voará

O que relembra e enaltece
é o mundo que esquece em cada gole de cachaça
e tenta viver, e tudo passa
mas nada há de passar

E dorme pra esquecer
que acorda no dia seguinte
pra querer dormir

relógico

Cada qual tem um tempo
cada tempo pulsa
e pulsa
tic

Cada metro quadrado
aguardado
pulsa

Todo espaço no seu tempo
e a cada contratempo
momento
tac

E se pudesse viver o instante
cada alçada ante
penitência
tic

E se quisesse saber do futuro
um belo e velho muro
teria consentimento

É que de novo
tac

E que de velho
tic

E toc
o mundo

Prefere viver de desalento

Se o canto já passou
e a lástima engessou
o que lhe resta é contento

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ontem fui ao cinema sozinho, esperando te ver por lá. Pensei que, entre todas as cadeiras vazias, uma estaria cheia de ti e era ao lado que eu iria sentar.
Ontem fui ao cinema sozinho e, ao findar do filme, levantei rápido para ver se estavas ali. Te vi em todos os rostos chorosos e solitários, mas em nenhum te encontrei.
Ontem fui ao cinema sozinho, esperando dividir um cigarro contigo na volta. Como não estavas por lá, andei sozinho o calçadão, atravessei a rua, subi o morro, entrei em casa, deitei e dormi.

sábado, 9 de julho de 2016

Penso que tudo tem uma consciência própria
inumana, porém consciente.

Dou olá ao chá,
converso com o desinfetante,
escondo o cigarro das roupas recém lavadas:
elas ficariam sentidas.
Não existe dor maior
que o Dó menor
seguido de um Si
e depois deixado pra Lá

Alumia

Nasce o sol de luz
e alumia

distancia o LED
dos olhos claros
e, claro, sorria

Nasce o sol alumiando
e esquenta
a pele vermelha
sadia;
Alumia aqui o riso fácil
Nasce o sol e me alegria

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A coincidência de uma morada comum

É estranho ver em tua antiga casa outra mulher que me seduz.
Lembro-me exato do dia em que se mudara pra cá. Tão cheia de alegrias, em contraste com o tamanho da bagagem que carregava. Teus sonhos ainda vivem aqui, imagino, nunca realizados.
Enquanto converso com ela, é recorrente que teu fantasma apareça, de camisola preta e uma taça de vinho nas mãos.
Nosso assunto é sempre rodeado de nostalgia minha.
Será que a nova amiga percebe os rodeios que faço nas palavras para ter tempo de lembrar de você?
Acredito que não.
Então me deleito. Decorei teus passos nesses anos passados. Te vejo caminhar em todos os cômodos, falando as graças e perturbações que sempre dividíamos. Acariciando o gato com nome amarelo, apertando-lhe as bochechas felinas.
Digo à moça que preciso interromper o assunto para ir ao banheiro. E neste cômodo tudo está diferente. Com iluminação mais forte, fica confuso relembrar as cenas que tivemos. Te vejo escovando os dentes, penteando os cabelos. Abro a porta do box devagar, para que soe desapercebido.
Lembro de fazer amor no banho. Te lavar o corpo devagar enquanto falamos de trivialidades e nos beijamos.
Na volta, a garota está na cozinha. Abraço-a quase como te abraçava, por detrás, frente à pia. Beijo-a ali, mas tenho o cuidado de que o beijo seja de modo diferente, talvez menos amoroso. Meus gestos para com você estão guardados nessa casa e aqui permanecerão (sem serem novamente utilizados - nunca).
Nos amamos em teu antigo quarto. Com outra configuração, mas definitivamente o mesmo. Escuto os novos ecos, de novos suspiros, ressonando nas mesmas paredes que os antigos suspiros teus.
Quando descanso, suado, acaricio os cabelos do novo amor e penso neste quarto.
Foi aqui que me dissera adeus.
Nesse mesmo lugar onde deito exausto, ficou o nosso amor.
Tento não lembrar das lágrimas, mas emociono. Aqui, neste mesmo ar, deve ter sobrado resquício líquido da lamentação que derramamos por conta do fim de um tempo. Nosso pequeno tempo.
Então, ainda acariciando a outra, vou fechando os olhos. Não sei se espero sonhar os sonhos que tive aqui naquelas noites. Não sei se espero que, ao acordar, o quarto esteja de um jeito antigo - o jeito teu - e ao meu lado os teus cabelos longos.
Na verdade, não espero nada.
Nunca mais voltarei aqui.
Depuis nos radicaux
Sont tout mous
Tous ses fruits
Touchent le sol

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Descobri que teu cheiro era só meu cheiro maquiado
O cheiro solitário.
O cheiro forte e fraco da minha mão sozinha, fedendo a cigarros

Descobri que você nunca me existiu como é
E agora, talvez, nunca irá

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A inspiração de um nas palavras de outro

Tenro
Nos covis do banheiro
Mofado
Calo
Na fala e nos pés
É
Sutura mal costurada
Nada
É
Desjeito no peito
Dejeto
No esgoto insosso
Moço
Que queria tocar-me a face
Num bar
Forró sem som
Sem fala
Calada
Como a noite
Afaga
E apaga os desejos

Dejetos sem jeito

sexta-feira, 24 de junho de 2016

eu sabia
que um dia
me ia voltar
a poesia

só não esperava
que fosse tão doída
essa volta tardia

quem dera voltasse calma
que lavasse a alma
não quedasse arredia

benquista nos sonhos
malvada nos dias

pensei versos risonhos
tristejei porcarias

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O valor das bobagens (ou o valor da bobice)

Quando criança, todas as coisas são atencionáveis
O tamanho do grão de terra no canteiro da vovó,
A textura da borracha nova na escola,
O som do vento no lençol estendido,
As orelhas grandes de Samuel.

Me lembro de sentar no chão do pátio e, com o indicador e polegar quase juntos (na altura - e bem próximos - dos olhos), pensar que podia segurar qualquer pessoa ou coisa que passasse por ali. "Que pequeninos", imaginava.

Depois de um tempo, os dedos cresceram. Mas parece que o vão entre eles cresceu mais ainda.

Algo aconteceu

Ontem não importava mais o grão de terra nem as orelhas do amigo. Não cabiam mais pessoas entre os dedos. O bonito tinha virado bobagem.

Hoje, bobo que sou, resolvi ouvir o som do lençol no varal.
E, para minha surpresa, ele ainda estava lá.
O carinho
é como o vinho
Tem a chance de viver longas datas

Alivia as noites
Afasta os açoites
Cura até conversas chatas

Mas o carinho,
como o vinho,
se deixado por muito tempo, vira vinagre

Que não serve pra nada
a não ser temperar a salada

Metade desafinada de uma música sem título e que precisa de parcerias para ser finalizada (leia-se: alguém me ajuda aí)

capo 3

Bm      C#m   F#m    
prevalesceu o mar
G#7
de angústia
A        A/F#
então pra quê
C#m
pensar?

Bm                  C#m
decerto um dia vai
F#m                       G#7     A
brilhar o tempo em teu olhar
                 G#7
sorrindo assim
       C#m
pra mim

          A
e eu vou embora
G#7
sem deixar
C#m
saudade
 A/F#                    X                  C#m
e vou juntar o vento e teu lugar num só cantinho aqui

         A
e eu vou matar
       G#7
essa vontade
C#m                     F#m
eu vou viver de novo esse verão
A                  G#7      C#m
enquanto houver carinho em mim

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Pensei até te procurar em outras bocas
mas teu beijo foi tão longe, tão pouco
que, caso a encontrasse, não saberia

terça-feira, 21 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

Lista de coisas a se fazer ou aprender

1- Deve-se abraçar a sinceridade e caminhar com ela, apesar dos infortúnios que isso possa causar.
2- O amor nunca deve ser requisitado, apenas doado - sem que o motivo seja receber o amor da contraparte.
3- Não se deve pedir desculpas a não ser que o ato venha do abraço da sinceridade.
4- A bondade não exige recíproca, mas não deve ser pura e simplesmente um ato de caridade consigo mesmo.
5- Deve-se ouvir mais do que falar, prestando atenção em todas as nuances da fala e, só depois, analisar e oferecer suas opiniões sinceras.
6- A solidão não deve ser um tema recorrente dos pensamentos.
7- Deve-se aprofundar mais no conhecimento de tudo, não apenas tangenciar a superfície e se dar por satisfeito.
8- Certas vezes, é preciso se deixar não pensar em nada e apaziguar os sentimentos.
9- A saudade é parte do mecanismo do amor, e segue as mesmas regras.
10- Deve-se gostar da própria presença e, com efeito, querer compartilhar.
11-
12-

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Desanuviei

e, como o céu,
me abri

vi que não faz sentido esconder com a peneira
deixa o tempo aberto limpar as penas
deixa o vento vir
deixa vir

desanuviou
deixei o tempo abrir

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Me largo, me deixo, me deito
Frio nas mãos e nos pés
E no coração?
Ah, já não adianta mais falar nisso.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Pleno

Me perder na vasta imensidão do tempo e me encontrar. Anos depois, sozinho ou acompanhado, e pleno. Sem as amarras do insano medo da solidão.

Festina Lente

"Tudo em seu tempo", ela disse.
E sumiu.
O que me resta então é esse tempo que insiste em não passar,
acordando os dias com a memória de uma noite, a única que dividimos.

Então apressa-te, mesmo que essa pressa demore.
Meu peito aguenta só mais algumas pancadas até endurecer
e, quando isso acontecer, não sei o que vai ser de mim

sábado, 4 de junho de 2016

e então constatou que a tristeza faria, cada vez mais, parte do seu ser
e não havia nada de errado nisso

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Faço de mim a pedra na ponta final do abismo
e então eu mesmo chego e chuto a pedra na ponta final do abismo
mas escorrego e não consigo a atingir a pedra na ponta final do abismo
então, desajeitado, caio do abismo onde fica a pedra na ponta final do abismo
e, como fiz de mim a pedra na ponta final do abismo,
me observo cair do abismo

me ralo, me quebro, morro
mas ainda sou a pedra na ponta final do abis...
Ah, pulei também

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tem vezes que penso te querer de novo

Tem vezes que penso te querer de novo
O sorriso fácil
A dança na rua
As noites suadas com gosto de vinho e gemidos no ouvido
O corpo de mulher com alma de menina
Nosso sexo longo e febril
Os devaneios sobre a existência
As alimentações improvisadas
A leitura no parque

Tudo em um final de semana
Que terminava como terminou

Eu aqui, pensando em te querer de novo,
Você aí, dizendo me querer sempre,
E nenhum dos dois juntos
E nenhum dos dois sozinhos

Mas tem vezes que penso te querer de novo
E tem vezes que quero
Prendo o prego próximo ao peito pra não precisar parecer perfeito o que paira ali por perto
Aperto a porta e fecho
Tranco a tranca tão bem trancada que tento sair e não consigo
Desprendo o prego
Destranco a tranca
Não quero quedar aqui comigo

Uma rima no final, pra parecer bonito o clichê

Essa noite de chuva me faz pensar em você.
Na verdade, qual noite não tem me feito isso?

Então me deixo assim, pensando
e quando vejo, já fui longe

As gotas molham a janela do meu quarto.
Sinto-as em mim,
como teus dedos gelados poderiam ter sido

E enquanto escuto os gotejos, penso que também os ouve
E cala
Tão bom é o silêncio pra sonhar

Então cogito parar de pensar:
Talvez te traga pra perto

Mas, de longe, deixo o pensamento na enxurrada

Só penso em você e mais nada

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Meus sinceros sentidos

Do tato que roçou com a mão a pele veio o cheiro de perfume entre os dedos e o breve gosto do beijo rápido, quase indo

Sinto
Mas não "sinto muito"
Ou sinto?

domingo, 8 de maio de 2016

Naquele tempo as bandeiras tremulavam solitárias.
Veja bem...
Bandeiras, depois de pregadas ao solo, são deixadas apenas para dançar ao vento.
Os dias de luta, o sangue derramado, o suor daqueles que carregaram não só o estandarte, mas a coragem para lutar por ideias, tudo isso é pregado ao solo junto às bandeiras.
E deixados.
Quanta angústia boa no teu silêncio
Pena que coração não sobrevive de ausência

quinta-feira, 5 de maio de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

Dois barcos - Cap. I

Eram dois navios que oscilavam, longe, num grande mar de infinidades. Afastados pelo espaço e pelo tempo, mas com um destino comum.
Chegariam em algum ponto, o mesmo ponto, lugar em que seus trajetos não seriam mais importantes.
Ali, provavelmente, seria conclusivo que nem deveriam ter existido.
E ainda assim eram dois barcos, navegando pelo espaço-tempo.

O casco de um, desgastado pelas marés, trazia marcas e cicatrizes vorazes, resistindo ofegantes às investidas do sempre violento mar. Rangiam alto, ritmadas pelo som da antiguidade, mas nunca cediam ao avanço contrário das águas.

O casco do outro tinha o verniz reluzente à luz laranja do pôr-do-sol. Cortava as ondas como faca afiada e quente, passando pela carne ainda fresca. Navegava na velocidade do vento e não havia nada que o pudesse parar. Era um raio de luz que todos viam e segundos depois não estava mais lá.

Eram contrários e, sem saber, ainda tinham seu encontro.

domingo, 6 de março de 2016

Versinhos para uma cabana nas montanhas

A grama seca da neve que passou.
Ao lado, a lenha que sobrou dos fogos que acendi ali.
Eu, parado, contemplo tudo, aqui.
Não tenho resposta pra nada
só viver e lembrar do que vivi.

Lá fora ela corre, dança,
o vestido gira no contorno do vento,
aguarda o chá que aqui dentro esquento.
Já nem lembro da grande cidade, do pequeno apartamento.

Tudo é lento
não duvido, só alento e agradeço.
O que há de vir virá

Em paz.
Só existe a paz.

A moça do bosque

Ela era grande, a linda pequena mulher que cantarolava pelo bosque
sozinha.
Rodava seu vestido e, enquanto envelhecia, o tecido continuava na sinuosa dança.
Centrífuga, disseram sobre ela.

Quando girava, entrava em ressonância com a Terra,
a mesma frequência.

Ela está em consonância com tudo,
em harmonia, como sonhavam os antigos.

Uma das mais belas músicas cantadas pelo universo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O destoar me parece válido
Não sou quem pareço que deveria ser

Nem quero

Ainda sou o menino que dizia de esgotos e muralhas
Ainda vivo das falhas
Mas não deveria

Ser adulto é no mínimo triste
Mas ainda sou criança, no pouco de mim que existe
Pensei: pena por pena?
E penei

Detalhe

Me da um calafrio na mão
E uma quentura no peito
Quando penso no cê