sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Finados


Eu até pensei em deus,
pedi umas graças
e sei que tu pediu também.

Mas, no meio da minha reza
o padre saiu com tanta pressa
que nem terminei o ato.

Tropeçou, deu duas piruetas,
gritou "senhor, me paga essa gorjeta",
e caiu estatelado.

Crânio fraturado, morreu na hora.

E eu perdi quando dizia que não era possível:
o padre agora está ao lado de Jesus.
No cemitério, eu digo.

Foi enterrado,
e, na lápide ao lado,
se pode ler em meio a lenha:
Jesus Manoel da Silva e dos Santos Adorado.
Que a terra os tenha.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sinceridade já matou.

Te escuso meu amigo,
e não quero mais te ver.
Olha, sinceramente, não queria,
sei que não podia,
e nem esperei acontecer.

Você tem andado com umas pessoas estranhas,
uns caras meio sacanas,
eu nem queria te dizer.

Mas abre teu olho,
pega as chaves, esconde o molho,
esse não é nem mais você.

Me desculpe ser sincero.

A Roça do Seu Aristides

A gente ia pra lá quando era criança,
pegava bicho de pé, carrapato,
era aquela andança.

O Seu Aristides sempre sabia quando a gente ia chegar,
só de ouvir os pezinhos, ele já saía na porta, viola no braço,
já dava um abraço e começava a cantar.

E a gente era novo,
não entendia de quase nada.
Quando Seu Aristides cantava aquelas coisas de amor,
que a mulher dele até chorava,
a gente tava chutando o pé do outro debaixo da mesa,
tava esperando a sobremesa,
tava querendo correr no milharal.

Mas agora a gente entende o Aristides,
quando a gente vem aqui triste nesse bar.
São Paulo já não cabe mais gente,
a gente não encontra mulher descente,
e já faz um mês que tamo cansado de trabalhar.

E quem de nós que não senta nessa mesa,
bebe três, quatro cerveja,
e não tem vontade de voltar?
Lá pra onde era certo,
a roça do Aristides era perto,
leite de vaca, queijo fresquinho,
e música triste pra gente brincar.

De tudo desses mundos, desses tempos, de nem sei.

Tenho um medo do futuro
a partir do momento em que lembrei que ele existe.
Sinto saudade um mês antes de sentir,
e um ano inteiro até ela passar.

Meu coração é meio estranho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Na realidade
as únicas partes boas da vida
são aquelas
que você nem se toca
que vai lembrar pra sempre.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Planto tuas cinzas tal qual semente e te rego até nascer de novo, se for preciso.


Teria mil cortes nas mãos, cansadas do garimpo.
Teria cem calos nos pés, fartos da terra.
Teria quinhentas cicatrizes na face, surrada nas brigas.

Tenho cortes, calos e cicatrizes no peito, ainda aberto e tentando compreender.
Acomete-me a vontade. A saudade. E algo mais.
Aparece-me o desespero das pessoas ao meu redor.
Medo e vergonha me desesperam agora.

Se tivesse a lâmpada,
pediria para não fazer mais escolhas na vida.
As que eu fiz, até agora, já bastam.
Já me faço feliz com elas, já sou completo.
Pediria para que outros me escolham,
outros me digam o que fazer.
Não quero precisar entender o meu passado
e me culpar pelo presente que talvez tenha fugido.

Busquei o que precisava,
sou o homem feliz que queria ser,
mas a tristeza ao meu redor me faz triste,
as fugas e atalhos que não percebi que tomei
percebem-me agora e me apontam o dedo.

Eu fico com o que quiserem,
tomo a pílula azul ou vermelha.
Se essa é minha vida agora,
sou feliz.
E ainda quero dividir.
Então venha pegar sua parte,
porque, mesmo dizendo que não, convidei todas as vezes em que tinha muita felicidade para dividir.
E a resposta foi "deixa pra outro dia".

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A comédia do seu fim.

O que é isso que ostenta no peito?
É coisa que nem sabe direito?
Encontra o velho pão dormido
e perde os dentes pra se acostumar
treze anos de alegria
o triplo e meio de azar
na maleta três aspirinas
um copo d'água
margarinas
dois quilos de manjar

O que te esconde se não surte efeito?
Já troca o tempo pelo selo eleito?
Pensou que foi mas não tinha ido
diz que tenta mas nem quer tentar
abre a mão mas noutro dia
poesia é puro ar
vai lembrar daquelas sinas
quedas d'água
marinas
e não vai querer voltar

Não se muda nenhum feito.
Do berço até o leito.
Queria ter sido
poderia mudar
se pensasse na maria
se pudesse não lutar
pede até graças divinas
benze água
imaginas
e perde e deixa o tempo voar

Eu não sei entender o começo, meio e fim.
Ai de mim.

Meu tempo

De tudo um pouco
se alimenta o profundo mar de sentidos.
O toque na pele,
o som do sorriso.
Percebe a falta nos segundos
quando o tempo passa bem mais devagar.
Hoje é tartaruga, até te encontrar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Porquesia?


A poesia não é um salto no escuro,
seria triste demais se fosse.
A poesia é um extremo norte de algum lugar bem ao sul do oeste.
A poesia é deus, e todos sabem que ele não existe.
Os que não sabem, por favor se submetam a exames.
Por que a poesia é tão manda chuva?
Bate vento na janela.
A poesia pra mim é uma teclinha que eu aperto dentro do nariz de um mendigo.
É um botãozinho no cu de um elefante, e você veste pés de pato e máscara de mergulho.
A poesia pode ser qualquer palavra relacionada a sexo, traumas de infância ou anestesias.
A poesia tem fedido ultimamente.
Me disseram que é bom não usar desodorante na poesia,
ele escurece a pele.
Eu gosto da minha poesia de pele lisa e mal passada, com muito molho, por favor.
A poesia é uma esfera azul cintilante no fundo mais profundo do mar.
Poesia é o caralho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

04:15 é quase.


O quê tem pra me dizer a essa hora da madrugada?
Que ainda falam em algum lugar do mundo,
trancados no quarto?
É o que faço agora?

Vais hoje, que já é tarde,
e volta daqui um tempo,
que já é tudo natural.
Mas e se não fosse?

Daí tem muitas pessoas na tua vida que ainda respiram
mas nunca mais dividiram o teu ar,
e nem irão.

"Mas vai hoje, que já é tarde"
é o que me diz essa hora da madrugada,
e eu acato e vou quieto.

Lá tem vida nova no teu sangue.
Aqui também.
Meu grande amigo disse que vida é quando toca a vida de alguém.

Daí a gente vai tocando a vida então.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Otimismo, pra quê te quero?


Decepo-me e logo noto nós na minha cabeça.
Chego mais perto para um olhar mais aguçado.
Vejo pulgas atrás da orelha e rugas nos olhos.

Boto minhas luvas de taxidermista
e vou ao ataque: PLAFT! tenho minha consciência em mãos.
Brinco um pouco, giro-a no ar.
Aproximo o bisturi e corto na metade.
Jogo uma parte fora e a outra boto logo de volta no lugar.

Dilacero-me a cabeça em todas as partes.
Tiro metade de um e metade de outro.
Três metades para cada três inteiros
são jogadas no lixo,
as outras três, devolvo a mim.

Ao fim do dia, tenho só sorrisos,
que metade de mim que era choro
fica nos entulhos hospitalares
dessa nossa vida,
para ser esquecida ou reciclada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Paranóia

Olho de um lado pro outro.
Olho de novo.
Tem sempre alguém ali.
Olá.

Olho pra ver se ando torto,
olho meio torto de novo.
Cadê?
Não achei ninguém.
Olá?

Cadê aquela minha calma?
Cadê a alma que já tive aqui?
Cadê as respostas pra vida que pedi?
Cadê os pedidos que queria ouvir?

Olho de um lado pro outro,
um lado torto, olho pra mim.
Tinha alguém que não está mais ali.
Tinha alguém aqui que não estou mais.
Tem quem entenda?
Alguém me conhece?
Queria que conhecessem.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quanto silêncio onde já foi riso.


Deixei a comida sendo preparada na rua e
corri com o medo do assalto.
Abri essa porta barulhenta achando que ouvia alguma voz dentro da casa.
Nesse caminho da sala até meu quarto,
o coração pulava no peito tal qual acrobata no trapézio.

Imaginei encontrar alguém nessas paredes,
alguém afim de uma conversa longa,
querendo abstrair o mundo e negar as incertezas do nosso coração.

Queria, por um instante, ouvir um causo longo
sobre alguém que não conheço
e dar uma risada monumental.
Falar da minha saudade de ver essa casa cheia,
lembrar de dias de Rango Louco, Alcione e areia,
contar das minhas veias onde corre meu novo amor.

Pra mim, parece que tudo passou na velocidade de um foguete,
fiquei adulto, fiquei chato, careta, amei demais.
E tudo isso em um só ano,
em uma voltinha ao redor do quente sol de São João del Rei.
E o quanto eu me lembrei.

Mas esse alguém dessa conversa
é esse ninguém do meu peito,
onde tudo passa do seu jeito,
onde tudo quer, sem que ninguém peça.
Acendi meu cigarro, pra acalmar o coração,
pra feder o meu quarto já cansado,
amarelar os finos dedos dessa mão.

Não nos prego como nostalgia,
tenho 20,
já fui triste
e já nem sou.
Só não quero o resto da vida só por vir,
com um ou outro aqui, outro por lá.

Queria todos juntos,
no quintal,
conversando junto à fumaça dos mil cigarros que sonhávamos em negar.
Só que ando com um vazio no meu peito,
onde tudo quero do meu jeito,
onde tudo peço, sem passar.

sábado, 17 de setembro de 2011

inconstitucionalissimamente

Busco problemas pra me entreter,
nesse sofá quebrado do quintal.
Onde escolhi cartas na noite passada,
e hoje não tenho nem cigarro pro meu mal.

Sinceramente, eu não consigo escolher
o que eu realmente sinto que quero.
E as vezes acho que ando sem sentido pro futuro.
O que antes era um conselho pra viver o agora,
se torna um apelo pela cigana que lerá a minha mão.

Esses sonhos que tenho são vagos e infinitos,
e o meu medo é de não realizá-los até o fim da vida.
Vou tentando, seguindo o conselho dos amigos.
O que tem me importado agora são as companhias.
E tenho as melhores.

Mas aqui, agora, trancado no meu quarto,
não tenho visto motivo pro meu futuro realizar,
não importa o quanto tento.
Pode ser tragédia da cabeça,
dramas do desconhecido,
ou falta do que fazer.

E então, por enquanto nem importa.
Se estou feliz agora, vou continuar fazendo o melhor pra continuar assim.
E deixa que as coisas chegam.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

De muitos, faltam poucos.


Talvez eu seja esse grande clichê,
mas quem não é?
Em pouco tempo, as coisas tomaram tantos rumos,
que o conforto do clichê às vezes me caia bem.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Me diga o número do teu bilhete e direi quem tu és.

E agora me carrego de sonolências,
às quase cinco da manhã.
Preocupado com o transporte
que, desculpem, fede morte
e cachaça barata.

Mas, enquanto em movimento,
me preocupo e me contento
e me vejo quase ali.
Quase perto do que uma semana pareceu tão longe pra mim.

E só agora me percebo pronto pra dormir.
Poderia ser mais cedo, a sonolência,
mas é sono lento de chegar.
Talvez pelos amores aqui no peito,
os pavores que nem sei direito,
e a vontade de te ver.

Só sei que suo frio,
mas fecho os olhos pra dormir tão bem.
Que amanhã, na estrada longa,
vou passar pelas paisagens
que sei que já passou também.
E vou feliz.

sábado, 10 de setembro de 2011

Título

Sempre vejo graça no que acho que é agora.
Agora anda tão longe que nem sei.
Hoje me rodeio de alguns que não são
e de outros que são e talvez nem sejam.

Em alguns meses, sinto que sei que sou o que talvez nem seja.

E é simplicidade que me traz e leva.

Me deixo e me vou e volto.

E o frio do risco, na barriga,
adrenalina, que disse ao amigo agora a pouco.
E o amor. Que nem explicaram mas sei que sinto.

Se isso não for ser,
não sei o que é.
Se não for, me perco e sou.

De último momento.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

round my hometown


Tua força no meu peito.
ME MATA Ó SAUDOSA SAUDADE,
saúdo o que nunca tive e volto saudável pra casa.

Lembro dos tempos em que não sabia como seria esse tempo
e esqueço de tudo e volto.
Nunca volta, eu sei,
mas ficar saudoso é bom e então estou aqui pra lembrar.
Quem quiser lembrar, arrume a mala e pule na caçamba.
Je crois entendre encore
Caché sous les palmiers
Oh souvenir charmant,
Folle ivresse, doux rêve!

Sou sonho, e és também,
pelo fato de ter percebido que somos todos os mesmos,
em lugares diferentes.

Charmant Souvenir!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Aquele ele que sou eu perto de ti e sou feliz.


E ao acordar se viu face a face
e descobriu que era isso mesmo
e não tinha por quê não ser.

E passou o dia inteiro pensando no que já tinha pensado
e leu algo do dia passado
e esperou a noite, que sabia que viria.

E veio, e continuou pensando,
e se viu face a face de novo,
e já criou um carinho enorme
e uma vontade
e uma duvida de que se não for verdade
e um medo de estar errado
e acha que não está
e é muito tímido pra achar
e tem certeza que vai mudar
porque não pode perder, por eles dois, que se precisam talvez.

E ao acordar se viu face a face,
novamente,
e se despediu pra ficar pensando
e esperando.