quinta-feira, 2 de junho de 2016

Prendo o prego próximo ao peito pra não precisar parecer perfeito o que paira ali por perto
Aperto a porta e fecho
Tranco a tranca tão bem trancada que tento sair e não consigo
Desprendo o prego
Destranco a tranca
Não quero quedar aqui comigo

Uma rima no final, pra parecer bonito o clichê

Essa noite de chuva me faz pensar em você.
Na verdade, qual noite não tem me feito isso?

Então me deixo assim, pensando
e quando vejo, já fui longe

As gotas molham a janela do meu quarto.
Sinto-as em mim,
como teus dedos gelados poderiam ter sido

E enquanto escuto os gotejos, penso que também os ouve
E cala
Tão bom é o silêncio pra sonhar

Então cogito parar de pensar:
Talvez te traga pra perto

Mas, de longe, deixo o pensamento na enxurrada

Só penso em você e mais nada

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Meus sinceros sentidos

Do tato que roçou com a mão a pele veio o cheiro de perfume entre os dedos e o breve gosto do beijo rápido, quase indo

Sinto
Mas não "sinto muito"
Ou sinto?

domingo, 8 de maio de 2016

Naquele tempo as bandeiras tremulavam solitárias.
Veja bem...
Bandeiras, depois de pregadas ao solo, são deixadas apenas para dançar ao vento.
Os dias de luta, o sangue derramado, o suor daqueles que carregaram não só o estandarte, mas a coragem para lutar por ideias, tudo isso é pregado ao solo junto às bandeiras.
E deixados.
Quanta angústia boa no teu silêncio
Pena que coração não sobrevive de ausência

quinta-feira, 5 de maio de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016

Dois barcos - Cap. I

Eram dois navios que oscilavam, longe, num grande mar de infinidades. Afastados pelo espaço e pelo tempo, mas com um destino comum.
Chegariam em algum ponto, o mesmo ponto, lugar em que seus trajetos não seriam mais importantes.
Ali, provavelmente, seria conclusivo que nem deveriam ter existido.
E ainda assim eram dois barcos, navegando pelo espaço-tempo.

O casco de um, desgastado pelas marés, trazia marcas e cicatrizes vorazes, resistindo ofegantes às investidas do sempre violento mar. Rangiam alto, ritmadas pelo som da antiguidade, mas nunca cediam ao avanço contrário das águas.

O casco do outro tinha o verniz reluzente à luz laranja do pôr-do-sol. Cortava as ondas como faca afiada e quente, passando pela carne ainda fresca. Navegava na velocidade do vento e não havia nada que o pudesse parar. Era um raio de luz que todos viam e segundos depois não estava mais lá.

Eram contrários e, sem saber, ainda tinham seu encontro.

domingo, 6 de março de 2016

Versinhos para uma cabana nas montanhas

A grama seca da neve que passou.
Ao lado, a lenha que sobrou dos fogos que acendi ali.
Eu, parado, contemplo tudo, aqui.
Não tenho resposta pra nada
só viver e lembrar do que vivi.

Lá fora ela corre, dança,
o vestido gira no contorno do vento,
aguarda o chá que aqui dentro esquento.
Já nem lembro da grande cidade, do pequeno apartamento.

Tudo é lento
não duvido, só alento e agradeço.
O que há de vir virá

Em paz.
Só existe a paz.

A moça do bosque

Ela era grande, a linda pequena mulher que cantarolava pelo bosque
sozinha.
Rodava seu vestido e, enquanto envelhecia, o tecido continuava na sinuosa dança.
Centrífuga, disseram sobre ela.

Quando girava, entrava em ressonância com a Terra,
a mesma frequência.

Ela está em consonância com tudo,
em harmonia, como sonhavam os antigos.

Uma das mais belas músicas cantadas pelo universo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O destoar me parece válido
Não sou quem pareço que deveria ser

Nem quero

Ainda sou o menino que dizia de esgotos e muralhas
Ainda vivo das falhas
Mas não deveria

Ser adulto é no mínimo triste
Mas ainda sou criança, no pouco de mim que existe
Pensei: pena por pena?
E penei

Detalhe

Me da um calafrio na mão
E uma quentura no peito
Quando penso no cê

domingo, 29 de novembro de 2015

Razão

Não te peço perdão
nem sentimento.

Quem sou eu pra pedir sentimento?

Olívia

Dizem que o medo sempre surge na hora.
No pulo do gato.
Mergulhando em terra, lama, água ou mato,
vamos sentir o gosto da relva e só:
o medo paralisa a garganta,
como na corda um nó.

Olívia se deteve a pensamentos.
Decidiu que, se houvesse momento, falaria.
Estava entediada, fosse tempestade ou calmaria.

Naquele domingo saudoso se expôs ao sol do meio dia:
estava branca. Um tanto pálida, sua mãe dizia - sem cessar.
"Quem dera em Minas houvesse mar"
Mas não havia.

Então ela, Olívia, calma por si só, resolveu desentristecer.
Comprou uma passagem pra longe,
onde tem vento e o sol não esconde,
onde qualquer um pode viver.

E no caminho, mesmo quando bateu saudade,
a menina se pôs a pensar:
"de quê me adianta a falta do que já tive,
se além-mar não me importa subida, declive,
apenas vou estar."

E assim Olívia seguiu pra frente.
Sem pensar em casa, parente.
Ela foi...

Ciclo

Sei que já passei do tempo
que estou além do breve momento que já tive.
Mas o aperto no peito,
esquerdo, direito,
ainda sobrevive.

Quantas insanidades devo viver,
ver o dia cair, amanhecer,
até que abro um sorriso?

Quantas contas hei de fazer,
acordar, vestir, correr,
até aparecer morto, no piso?

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Renúncia póstuma ao amor (a)guardado

Tantos amores perdidos, passados.
Tantos nós que não foram.
Queria saber de quantas sofridas
subidas, descidas
é feito o sal desse mar de morros.

domingo, 5 de julho de 2015

INCRÍVEL
faltou meio pé de alface
meia couve flor
e uma pitada de ardor de amor
ABSOLUTAMENTE INCRÍVEL
São Pedro assolou a cidade
com mil catapultas gigantes
e treze canhões d'água
INCRIVELMENTE INACREDITÁVEL
em julho são previstas
doze horas semanais de
sorvete grátis pros mais velhos de 40
INDUBITAVELMENTE ASSOMBROSO
a Arábia Saudita
diz que é sal
sal que é dita
E DEPOIS ME PERGUNTAM SOBRE OS GOLFINHOS.

sábado, 4 de julho de 2015

A Distância da Existência

Me distancio de mim quando existo.
Estou fora do meu raio magnético.
Existo em ondas materiais, luminosas, que nunca serão vistas (só absorvidas).

Sou vidas.

Sinapses não acontecem quando analisadas,
elas trabalham na surdina (como eu).
Sempre distantes.
Meu corpo não era eu, se penso em antes.

Somos a mutagenicidade dos nossos pais.
Pequenos seres, nulos, no limite da atmosfera.
E venho dizer, sem pesar, que desisti da espera.

Agora vivo, e passo essa mensagem:
se és humano, carne, osso, fígado e sentimento,
então continue.

Existe muito mais entre nós e os nós que nós fazemos
do que sonha a nossa vã hipocrisia.

sábado, 25 de abril de 2015

Them the waiters

The beach was warm. But they didn't like it.
The waves. Oh the waves. They sounded like apocalypse.
But they did not hear.

They just stood there. Waiting.
Barefoot. In the sand.
And stand.
Waiting.

Years passed. And so the others came.
Wood and iron in hand.
While the others stand.

And the question was made:
Will you take or will it fade?
And so they said:
Yes, we'll take.

For their waiting was well made,
The stubborn, the silly, and the maid,
They all dressed in gray.
And there was no way but to say:

We were here, day and night,
Night and day,
For there was nothing left to do
They'd split our soul in two,
There was me and there was you.

So the Wood and Iron was true:
The waiting was for the waiters what water was to the trout.
And meaningless they faded,
Never more to be found.

segunda-feira, 30 de março de 2015

São João

Tal qual João de barro, de ninho em ninho,
a gente retorna sempre... devagarinho...