quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O destoar me parece válido
Não sou quem pareço que deveria ser

Nem quero

Ainda sou o menino que dizia de esgotos e muralhas
Ainda vivo das falhas
Mas não deveria

Ser adulto é no mínimo triste
Mas ainda sou criança, no pouco de mim que existe
Pensei: pena por pena?
E penei

Detalhe

Me da um calafrio na mão
E uma quentura no peito
Quando penso no cê

domingo, 29 de novembro de 2015

Razão

Não te peço perdão
nem sentimento.

Quem sou eu pra pedir sentimento?

Olívia

Dizem que o medo sempre surge na hora.
No pulo do gato.
Mergulhando em terra, lama, água ou mato,
vamos sentir o gosto da relva e só:
o medo paralisa a garganta,
como na corda um nó.

Olívia se deteve a pensamentos.
Decidiu que, se houvesse momento, falaria.
Estava entediada, fosse tempestade ou calmaria.

Naquele domingo saudoso se expôs ao sol do meio dia:
estava branca. Um tanto pálida, sua mãe dizia - sem cessar.
"Quem dera em Minas houvesse mar"
Mas não havia.

Então ela, Olívia, calma por si só, resolveu desentristecer.
Comprou uma passagem pra longe,
onde tem vento e o sol não esconde,
onde qualquer um pode viver.

E no caminho, mesmo quando bateu saudade,
a menina se pôs a pensar:
"de quê me adianta a falta do que já tive,
se além-mar não me importa subida, declive,
apenas vou estar."

E assim Olívia seguiu pra frente.
Sem pensar em casa, parente.
Ela foi...

Ciclo

Sei que já passei do tempo
que estou além do breve momento que já tive.
Mas o aperto no peito,
esquerdo, direito,
ainda sobrevive.

Quantas insanidades devo viver,
ver o dia cair, amanhecer,
até que abro um sorriso?

Quantas contas hei de fazer,
acordar, vestir, correr,
até aparecer morto, no piso?

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Renúncia póstuma ao amor (a)guardado

Tantos amores perdidos, passados.
Tantos nós que não foram.
Queria saber de quantas sofridas
subidas, descidas
é feito o sal desse mar de morros.

domingo, 5 de julho de 2015

INCRÍVEL
faltou meio pé de alface
meia couve flor
e uma pitada de ardor de amor
ABSOLUTAMENTE INCRÍVEL
São Pedro assolou a cidade
com mil catapultas gigantes
e treze canhões d'água
INCRIVELMENTE INACREDITÁVEL
em julho são previstas
doze horas semanais de
sorvete grátis pros mais velhos de 40
INDUBITAVELMENTE ASSOMBROSO
a Arábia Saudita
diz que é sal
sal que é dita
E DEPOIS ME PERGUNTAM SOBRE OS GOLFINHOS.

sábado, 4 de julho de 2015

A Distância da Existência

Me distancio de mim quando existo.
Estou fora do meu raio magnético.
Existo em ondas materiais, luminosas, que nunca serão vistas (só absorvidas).

Sou vidas.

Sinapses não acontecem quando analisadas,
elas trabalham na surdina (como eu).
Sempre distantes.
Meu corpo não era eu, se penso em antes.

Somos a mutagenicidade dos nossos pais.
Pequenos seres, nulos, no limite da atmosfera.
E venho dizer, sem pesar, que desisti da espera.

Agora vivo, e passo essa mensagem:
se és humano, carne, osso, fígado e sentimento,
então continue.

Existe muito mais entre nós e os nós que nós fazemos
do que sonha a nossa vã hipocrisia.

sábado, 25 de abril de 2015

Them the waiters

The beach was warm. But they didn't like it.
The waves. Oh the waves. They sounded like apocalypse.
But they did not hear.

They just stood there. Waiting.
Barefoot. In the sand.
And stand.
Waiting.

Years passed. And so the others came.
Wood and iron in hand.
While the others stand.

And the question was made:
Will you take or will it fade?
And so they said:
Yes, we'll take.

For their waiting was well made,
The stubborn, the silly, and the maid,
They all dressed in gray.
And there was no way but to say:

We were here, day and night,
Night and day,
For there was nothing left to do
They'd split our soul in two,
There was me and there was you.

So the Wood and Iron was true:
The waiting was for the waiters what water was to the trout.
And meaningless they faded,
Never more to be found.

segunda-feira, 30 de março de 2015

São João

Tal qual João de barro, de ninho em ninho,
a gente retorna sempre... devagarinho...

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Apaguei

Vou deixar de lado
mas é engraçado
pensar na diferença entre apego e apago

sábado, 31 de janeiro de 2015

Vou te dizer, mulher,
e digo sério:
minha dúvida era do âmago

"será que amarei? "
disse

respondi que sim

e agora sei - ninguém precisa mais que isso
Não há pecado.
Só a culpa. E ela ocupa.

A porta destrancada, a torneira aberta, o adeus mal dado.
Não vai te levar pro inferno, mas chega perto.






(só que o inferno não existe)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Louco as vezes

Quando passa o passo
gira roda, o eixo, o carro,
e longe fica,
É quando bate o peso do laço
pensamento liga e desliga
é pisca-pisca.

É que o lençol desse encontro já foi lavado,
passado, guardado,
mas dentro o peito lembra, não esquece
e arrisca.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Acordei estranho,
sozinho no abrigo.

Sonhei contigo.

Mas teu carinho é melhor ao vivo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Conto mentiroso sobre alguém que inventei

Ele disputava o lucro consigo mesmo.
Queria saber se tinha saído ileso.

"Pra quê tanta disputa!?", disse a puta.
Ele assentiu. Não havia motivo pra perder seu tempo.
Já tinha desfrutado do gozo, que chegou tardio, mas veio.

Juntou seus farrapos, deu o último trago no cigarro e seguiu o breve caminho até a esquina mais próxima.
Sentou e ficou por lá. Não gostava mais de caminhar.
Na verdade, tinha perdido todos os gostos da vida, menos o de disputar lucros.

Por fim, dormiu ali, no frio, a calça ainda aberta, o cigarro inteiro queimado na ponta dos dedos.

Quando o vi na manhã seguinte, não lhe tinha sobrado muita coisa. Os ossos ainda vermelhos, em brasa, fumegavam desesperados.
Disseram que alguns moleques o prenderam bem amarrado e atearam fogo.
Mas só consigo me lembrar da pequena mulher, em prantos, que soluçava.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Caso queira, é só chamar.
Chego o mais rápido que posso,
e vou embora só quando mandar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

acho que preciso contar dos meus amigos
se me permitem a indiscrição

estamos todos numa fase estranha
cada um com um monte de coisa guardada na entranha
todos andam pedindo um pouco mais do coração

eu mesmo ando caído
cabisbaixo, sofrido
e descobri um monte de razão

mas a vida ainda vem,
meus amigos
e quando vier, vai responder tanta coisa
tanta solução

só não sei se quero isso
quero só tranquilidade
resolver na miúda meus problemas de ansiedade
sorrir quando deitar no colchão

é daí que chega a tua parte
se for, viajo até pra marte
se não vier com não

e todo o resto é sorte
nunca liguei pra morte
e ainda levo meu violão

Anúncio

vi um anúncio no jornal que me dizia em letras garrafais
MORTE AO EGO, BOM RAPAZ

daí fui pra rua, fiz um monte de loucura
e agora estou tranquilo