sábado, 26 de outubro de 2013

Contador

Eu estava escrevendo um conto
mas contei pra alguém e perdeu a graça.
Que graça tem um conto escrito que,
se contado, perde a graça?

Rinite

Meu amor, há quanto tempo eu não podia nem contar
o movimento do ponteiro do relógio
o seu carinho.

Há quanto tempo eu não sentia o ardor das decisões,
e é por essas a minha face sofrida:
decidi de amor e vento o momento,
a não-despedida.

Confesso, temi por dentro o enterro dos nossos abraços,
mas não vi cova que, abismal que fosse, coubesse.

Te distraio aqui o meu leve afago,
antes soubesse o que de mim carrega a ti
Que na noite, só, eu profetizo e apago:
quem dera eu ter de volta o tempo que tirei de mim

Daí pudera viver de novo aquele amor que cresce
que aquece mesmo no verão que tem por vir.
E daí eu corro do que me entristece,
ainda há tempo, sei, e me enlouquece
as voltas do relógio que passaram e não vivi.

Vivi de longe esse carinho,
como redemoinho,
devagarinho,
longe daqui.

terça-feira, 26 de março de 2013

Profeta

Malandro profetizou no acaso
que o laço do destino era um só:
aquilo e aquilo outro juntos, juntinhos,
numa histeria e amor de dar dó,
um nó.

Depois de descer o morro da favela,
assoprou quarenta e seis chamas
além de outra vela.
Cabral fatal, maria pinta e nina,
numa luta insana contra seus instintos,
aquiesceu e roubou a margarina.

Malandro era eu um tempo atrás:
correndo pra chegar em casa,
botar o celular pra carregar,
guardar o refrigerante na geladeira
e acompanhar o jornal na tevê.
Até parecia você.

Mas nostradamus que se preze não vê jornal,
escuta nas entrelinhas.

domingo, 16 de setembro de 2012

12


As migalhas do teu gesso em meus lençóis, ainda guardo.
Em total desconhecimento do que nós éramos,
o nosso retrato revelou o passado tendencioso da minha inquietude.
E descobri que era tua também.

Minhas entranhas ainda gelam ao lembrar do tempo
ao juntar dos casos
e meu relato é ínfimo diante do que nem me atrevo a tranformar em letra.

Teimo em dizer,
e até repito,
que não foi mero laço,
saudoso acaso,
que fez reunir tudo isso em que aqui venho.

Foi você.

E te devo tudo.
Desde o instante daquele momento,
naquela sala distante, sem requerimento,
encontrei o mundo e ele me viu também:
nas esmeraldas que miravam os poucos centímetros que sobravam entre a tua respiração e o calor da minha face já vermelha.

E daí em diante me abstenho:
não consigo discutir em verso o quanto de tudo é que eu tenho.

Nuit


Ele recolhe as insignificâncias.
O amigo do cabelo já foi dormir sem dar o ar das graças.

Fruto do trabalho incansável,
dispõe de abrigo frio e dolorido,
nas entranhas do sofá da sala clara em que se encontra.

Em sua frente,
uma tela mutável mas que se encontra negra, e assim se faz já fazem meses.
Se disperdiçou na varredura de casos, ele.

O cigarro, largou.
A bebida é escassa,
a geladeira também
mas a barriga nem tanto.

Das companhias se absteve e fez bem,
por enquanto.

Só aguarda o leve conforto da que teve nos braços,
e espera os enlaços tardios que só o que vem dirá.

Se quer questionar,
não tem tempo.
Se pode hesitar,
não consegue.

Segue na vã e morta
cadência dos fatos,
acontecimentos e laços.
Estrangula o seu
e até mais ver.

Jaz ali o seu ser.

Bran


Em branco.
Branco não, quase lá.
Uma cor meio fosca que aparenta ser como ando ultimamente.

Enquanto limpo minha casa,
recentemente alugada,
descubro tons estranhos de branco.
O branco da base dos meus tênis lavados com alcool em gel,
o branco do chão que já beira ao cinza
e o branco dessa página.

Simulação de página, eu digo.

Ultimamente eu ando simulando tudo.
Inventando relações naturais com tudo que não era pra ser.
Mas acaba sendo.

Contudo, me esvaio.
Escolho a partícula.
Mas mesmo assim me sinto obrigado aos fótons para o acontecer do meu trabalho.

Conheci tanta gente.
E nesse conhecimento, simulei reações impróprias do meu ser já divulgado.
Escolhi verbos, editei cadência vocal e, infelizmente, subtraí a consciência.

Não apurei meus fatos, inexisti enquanto eu mesmo
e acabei por depor meu contrato frente a juizes e réus.
O promotor se ausentou.

Agora recolho minhas migalhas do labor incansável às inevitáveis uma e meia da manhã.
Não foi uma escolha sã.

Pro meu fim, retorno ao igual:
eu aqui, eles lá, ela vindo.
O que me afaga é o ultimo caso,
o que me conforta é a vastidão do que virá.
Mas vem?

Não espero nada além.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Ser faz mal


Há quanto tempo que não passo ao passar do tempo?
Quantas horas no meu dia eu perco com meus passa-tempos?

Ligo e desligo a tevê
e dá uma hora e eu trabalho em uma.
Despeito meu descaso
atrapalho meu relógio
e espero o ponteiro que não me espera.

Grudo tudo em teia nova,
sou aranha esquizofrênica.
Teço meu esqueleto e esqueço a seda,
me melhoro enquanto imploro.
Sou deus e dono do mundo
e do arado da aldeia.

No escuro não me vejo
me encontro cavaleiro.

Me peço perdão por o que não fiz,
acendo a luz digna de pesadelo.
Sou estranho,
astuto,
mulambeiro.

Retorno ao monte, acostumado.
Eu sei, já não cuido do meu arado,
sou vitima de mim e de mim mesmo.

Mas sou você, em noite esquecida,
no mar de rimas soluçadas.
Sou tu me lendo no teu quarto,
olhos caídos, pêlos cortados.
Venerando a alegria de não ser.

Não sei se posso ou se vou saber.
Se me contar, te denuncio.
Se és vida, morte, ou estás no cio,
não preciso saber.

Só quero o ponto,
o fim e pronto,
já estou apto a me esquecer.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

C'est mim, después.


la poetria
non precisa de amores
nem de mim de ardores preciso
nem de puta poetria

la minha pós é fria
poetra que não soy
descanso o caso das palabras

poes poeta proponho à proa
prelúdio do conto que não contive
prometo de mim o ponto e
preparo o prélio que não proíbe

te digo, cachaça prompta do meu C+Copto
te digo:
se tudo és letra do carmimpto
zero e unos do palmar
tecrado véio que segura
ou o perpétuo do itaquarar
te digo:
se tudo és mi y avec moi
se je nes sais pas de yo perdido
se do mundo globlaliza já,
sei que espera o prato feito
sei que não vais cantarolar.

Deixes os helicópteros ptérios pitar

Desses Deuses de LED e painel solar

Dos meus moldes de pincel e de informar

Quero a touca
a canção rouca,
jerus e além de prosa e tar.

E esqueço de mi
espalho assim
com medo de voltar.

E só te espero no fim,
eu e vous, vós e nous, sim:
en l'água salgada del mar.

domingo, 15 de abril de 2012


Pula o mundo, deixa girar.
Tem dois arranha-céus ali que esqueceram de construir.
São João del Rei é uma bela prostituta,
mas tem andado com as pernas bem fechadinhas faz bastante tempo.

A gente pensa às vezes que vai ficar por aqui.
Tenta construir as casas, mobiliar.
Mas ninguém fica em lugar nenhum.
A gente não é dono de nada. Nós, os humanos.

Tenta até esquecer das questões,
pensa em amar, esquece o resto.
O jeito é acostumar, entrar nessa onda estranha que alguém criou faz um tempo.
Viver essa junção de muita gente em pouco espaço.

Tão pouco espaço.

sábado, 7 de abril de 2012

Clique Clique, eu tomo água.

Nunca pensei em morrer.
Não, não pense mal, não é isso.
Digo morrer, mas é morrer de livro,
que não tem nada de mais e eu continuo aqui.

Mas daí morro postumamente e meu chulé fede enquanto permaneço no caixão das ideias.
Quando volto sou zumbi, mas dos palmares.
Jogo duas capoeiras, um truco e três cachaças.

Morri, voltei e ganhei chocolate.

Queria cérebro, queria ideia.
Mas ganhei chocolate.
Tá bom, né?

terça-feira, 13 de março de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Aspirina


De que me adianta perder o sono
e os amigos
e a saúde das costas?

Perder os mimos
e os risos
e a saúde das costas?

Perder os rostos
e os gostos
e a saúde das costas?

Perder o gozo
e o nojo
e a saúde das costas?

De que me adianta perder a viagem
e a tarde
e as caras de bosta?

De que me adianta?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ainda sem caminho pro começo


Não sei se durmo ou se recordo,
ou espero o aconchego que não chega.

O meu lar é quente e a saudade era tanta
que nem matei.
Matei foi a vontade de morar.

Onde eu piso, vira calo,
onde eu me calo, deito e reviro,
martírio meu de nos querer bem e nem sei.
Talvez nisso eu erro, ou vai saber.

Daí me passa aquela vontade,
domingo eu mudo a minha idade
e mudo o medo e vou viver.

Quanto tempo tem, amigo?
Quanto tempo tinha?
Já passou até da metade,
ou a metade é mais grandinha?

Adeus vocês, sacrifico.
O outro eu já se foi,
agora eu fico.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eu fui viver um tempo, pra voltar.
Desculpe a demora, sei que mudei muito, e agora quero contar.
Tenha calma, é já.
Só preciso alinhar tudo, botar na prateleira, guardar o sorriso e abrir outro novo.
Já que vem.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Finados


Eu até pensei em deus,
pedi umas graças
e sei que tu pediu também.

Mas, no meio da minha reza
o padre saiu com tanta pressa
que nem terminei o ato.

Tropeçou, deu duas piruetas,
gritou "senhor, me paga essa gorjeta",
e caiu estatelado.

Crânio fraturado, morreu na hora.

E eu perdi quando dizia que não era possível:
o padre agora está ao lado de Jesus.
No cemitério, eu digo.

Foi enterrado,
e, na lápide ao lado,
se pode ler em meio a lenha:
Jesus Manoel da Silva e dos Santos Adorado.
Que a terra os tenha.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sinceridade já matou.

Te escuso meu amigo,
e não quero mais te ver.
Olha, sinceramente, não queria,
sei que não podia,
e nem esperei acontecer.

Você tem andado com umas pessoas estranhas,
uns caras meio sacanas,
eu nem queria te dizer.

Mas abre teu olho,
pega as chaves, esconde o molho,
esse não é nem mais você.

Me desculpe ser sincero.

A Roça do Seu Aristides

A gente ia pra lá quando era criança,
pegava bicho de pé, carrapato,
era aquela andança.

O Seu Aristides sempre sabia quando a gente ia chegar,
só de ouvir os pezinhos, ele já saía na porta, viola no braço,
já dava um abraço e começava a cantar.

E a gente era novo,
não entendia de quase nada.
Quando Seu Aristides cantava aquelas coisas de amor,
que a mulher dele até chorava,
a gente tava chutando o pé do outro debaixo da mesa,
tava esperando a sobremesa,
tava querendo correr no milharal.

Mas agora a gente entende o Aristides,
quando a gente vem aqui triste nesse bar.
São Paulo já não cabe mais gente,
a gente não encontra mulher descente,
e já faz um mês que tamo cansado de trabalhar.

E quem de nós que não senta nessa mesa,
bebe três, quatro cerveja,
e não tem vontade de voltar?
Lá pra onde era certo,
a roça do Aristides era perto,
leite de vaca, queijo fresquinho,
e música triste pra gente brincar.

De tudo desses mundos, desses tempos, de nem sei.

Tenho um medo do futuro
a partir do momento em que lembrei que ele existe.
Sinto saudade um mês antes de sentir,
e um ano inteiro até ela passar.

Meu coração é meio estranho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Na realidade
as únicas partes boas da vida
são aquelas
que você nem se toca
que vai lembrar pra sempre.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Planto tuas cinzas tal qual semente e te rego até nascer de novo, se for preciso.


Teria mil cortes nas mãos, cansadas do garimpo.
Teria cem calos nos pés, fartos da terra.
Teria quinhentas cicatrizes na face, surrada nas brigas.

Tenho cortes, calos e cicatrizes no peito, ainda aberto e tentando compreender.
Acomete-me a vontade. A saudade. E algo mais.
Aparece-me o desespero das pessoas ao meu redor.
Medo e vergonha me desesperam agora.

Se tivesse a lâmpada,
pediria para não fazer mais escolhas na vida.
As que eu fiz, até agora, já bastam.
Já me faço feliz com elas, já sou completo.
Pediria para que outros me escolham,
outros me digam o que fazer.
Não quero precisar entender o meu passado
e me culpar pelo presente que talvez tenha fugido.

Busquei o que precisava,
sou o homem feliz que queria ser,
mas a tristeza ao meu redor me faz triste,
as fugas e atalhos que não percebi que tomei
percebem-me agora e me apontam o dedo.

Eu fico com o que quiserem,
tomo a pílula azul ou vermelha.
Se essa é minha vida agora,
sou feliz.
E ainda quero dividir.
Então venha pegar sua parte,
porque, mesmo dizendo que não, convidei todas as vezes em que tinha muita felicidade para dividir.
E a resposta foi "deixa pra outro dia".