sábado, 2 de outubro de 2010

Caderneta do Sherlock Holmes

Sobras do tempo de antes
sempre sobram na minha cabeça.
Seus cigarros, nossos jogos,
as risadas e tudo mais.

Os dias na piscina,
enquanto me ensinava a nadar.
Suas revistas escondidas
e os palavrões que aprendi falar.

As memórias de um cara que se foi,
essa vida nunca é o bastante.
Mas no fim eu agradeço e rio,
Obrigado, meu caro amigo, meu grande tio.

Aquele dia

À tarde a chuva veio me dizer
que hoje era o último dia que eu
tinha pra tentar.

Você estava tão quieta,
eu não sabia o que dizer,
então resolvi deixar.

Foi quando, já na rua,
me pedira pra ficar só mais um tempo
até desencontrar

Eu disse: porque não? É claro que quero ficar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Velha

Hoje na rua eu consegui me deter
e pensei.
Consegui me tocar e me ver de dentro:
Aquela parte de mim palpitando para ser eu,
e era.

Toda a rua se virou de reverência, o meu carnaval particular e sóbrio.
Observava além dos confetes, mas nada mais me fez pensar.
O barulho era ensurdecedor.

Eu via os caras da madrugada e percebia
que era só aquilo que me tocava na nova vida
e não digo que fiquei triste, por essas é que eu sou pura felicidade.

O carnaval ficou bom e a água não era pra ressaca,
era só pra ter com quem tomar.
Lhes digo, amigos, que água boa era aquela.
Meu novo sonho púrpura lembrou do velho sonho e tudo ficou cinza como aquele céu.

Agradeci, o que mais eu podia fazer?

domingo, 19 de setembro de 2010

Um pequeno oi.

Oi, eu adoro o teu bom dia de madrugada quando acordo já na tarde e nem percebo os erros do resto do dia e quando vejo a luz na tela e fecho os olhos pra dormir só mais um pouco e sonhar com o que pode ser e lembrar dos poucos dias em que eu já me sentia um passarinho só de pensar que te veria sorrindo e dizendo coisas que guardei pra lembrar depois e conversar sobre coisas que guardei pra falar agora.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não é mais verdade, mas ainda vale como produção intelectual.

E eu a olho com suspiro,
nunca o ultimo, eu sei,
mas sempre o desespero.

E na volta, calo-me certamente.
Como na primeira vez em que
tais olhos vi de perto.

Agora, ano além,
me vejo com a mesma vontade de outrora,
tê-la perto, meu mundo certo, sem a falta.

Me desperto do suspiro e não me calo:
Mesmo longe, não tão perto,
aqui fica sempre teu, como sempre é
e espero o quanto seja.
Vixe, parece música sertaneja.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Penso o que quero e vice-versa.

Eu até queria acreditar,
até queria aceitar.
Mas só penso no contrário.

Até pensei voltar,
eu até pensei em não voltar.
Mas só quero o contrário.

Eu até queria dormir bem,
até queria não sonhar com nada.
Mas eu só penso em tudo isso.

Até pensei em deixar,
eu até pensei em me deixar.
Mas agora eu sei que é só eu quem escolhe o que faço de mim. Então vou pensar o quanto quiser, e querer o quanto pensar que for preciso.
Hoje não foi nada, hoje foi só um dia em que eu quis não pensar.
Mas não me deixaram.

Viagem ao Centro da Terra

- Olá, digo eu.
- Olá, diz ela.
- É quanto? digo eu.
- É cinquenta, diz ela.
- Toma, digo eu.
- Então vamos, diz ela.
- É aqui o meu apartamento, digo eu.
- Bonito, diz ela.
- Tira a roupa, digo eu.
- Ah, diz ela.
- Vem, digo eu.
- Isso, diz ela.
- Gostosa, digo eu.
- Que delícia, diz ela.
- Isso, digo eu.
- Aaaah, diz ela.
- Uuh, digo eu.
- Gostou, gato? diz ela.
- Quer um cigarro? digo eu.
- Não, diz ela.
- Já vai? digo eu.
- Sim, diz ela.
- Tchau, digo eu.
- Até, diz ela.

Rapidez

E agora? Como a gente vai saber?
E agora? Cadê aquele "sempre sei"?
Mas e agora? Porque fui duvidar?
Vou embora, não aguento mais esperar.

Acidental

Ela olha para os dois lados da rua e atravessa. Passa pela travessa onde tudo aconteceu e sente o cheiro de mofo. Acende um cigarro para esquecer o cheiro de sangue. Entra na porta velha, a velha porta que a atormenta nas noites em sua cama. As paredes escutam o tão silencioso passo e sentem o cheiro da fumaça do cigarro. As paredes, absortas, abrem caminho para ela passar. A moça encontra a outra porta, a porta que lhe falaram ser tal. Bate três vezes, já com a mão no bolso. Aguarda. Bate três vezes novamente, agora suando frio. O velho abre."Não estou mais vendendo", diz ele encarando a moça até lembrar quem era ela. Lembra-se da maravilhosa noite de núpcias na mesma travessa, onde a lua ouvia os uivos do casal recém encontrado.
Três sons surdos de pólvora escorrem pelo ar do grande corredor escuro, enquando o velho escorre pelas paredes ainda absortas e sujas.
Ela acende outro cigarro e lembra-se do velho, lembra-se da dor. Deseja poder matá-lo novamente, mas os jornais não a deixam: "Famoso estuprador e traficante é morto por uma de suas vítimas."

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

William,

Bom dia!..
Estou enviando este rapaz para você atender e ver se pode ajudá-lo.
E veio na Casa da Família o que ele está precisando nós não podemos ajudá-lo.
Certo da sua atenção, agradeço e que Deus o abençoe.
Márcio da Paz. 10.08.10

Achei um papel na rua e resolvi que ele seria uma excelente explicação pra tudo o que a gente não viveu.
Não se pode reverter as coisas, e a ajuda nunca vem de quem precisa te ajudar.
Só que ninguém entende que não existe ajuda.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Cara de dó.

Enquanto o mundo meu girou
eu não percebi que a volta era o silêncio.
Além do mais, pestanejei
e me encontrei ferrado em descontento.

Vivenciei a sobra de dois nomes,
despenquei no meu a sombra do inverno.
Tremi de medo e frio ao não me ver
junto a tudo aquilo que era correto.

Então alguém veio me dizer
que o mundo inteiro gira sem saber
e que não vale mais contar as voltas
pois no fim tudo a quilo que se vê

Uma volta e meia de rancor
Uma volta inteira de pavor
Então alguém veio me dizer
que não.

Passatempo

Só queria dizer pra mim mesmo,
mas nem isso eu tenho conseguido.
Parece que tem algo preso aqui,
não é choro, porque nunca fui disso,
é só uma sombra de dúvida.
Uma sombra de culpa por não ter conseguido me dizer que não.

Mas, como diz a nova música,
deixa que o tempo vá.
É, e eu queria ficar.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Rapaziada do nordeste, se preparem. Aqui vai uma chuva de concreto.

Hoje não vi o meu sol partir, e ele partiu sem nem mesmo ver. Hoje meu mundo caiu denovo e não há flor que se cheire e deixe levar seu perfume para algo além de mim.
Além de mim não existem dores. Então, percebo, só há dores no que resta se tirar tudo além de mim.
E, nesse clichê de flores e dores, não encontrei resposta alguma e minhas frases são malfeitas.
Comparo o novo mundo com os outros mundos, comparo e recebo de volta a conta de luz. Não vejo lucro nem no antes e no depois.
De mim, são dois: eu e ele, que sou eu.
Não sei quem sou e nem quero saber se for assim.
E depois disso, acabo tendo raiva de quem sabe.
Desisto, me esqueço e esqueço o resto.
Deixei pra trás o velho mundo, deixei pra trás tudo de mais.
Só levo o que me convém.
Sou um cretino.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Resposta

Recriei aquela realidade e estava tudo ali,
preto no branco.
Ressalvei fatos, regredi tatos, dei um sorriso largo para o desconhecido.
E, de tantos "res", ri. E foi tudo alegria.
Disse adeus ao mal-estar, a vontade e a alergia.
Revoltei e reinventei isso tudo pra poder dizer:
Hoje sou eu e mais nada. E, antes de tudo, sou só isso. Depois também.
Adeus.

domingo, 21 de março de 2010

Um rato, arroz.
Arroto, ou dois.
Hahaha, a inexistência de consciência é apenas uma fuga.
Todos somos nós, e tudo é todos.
Não há fuga boa no mundo dos homens.
Eu sou quem sou, e idiota é quem não é.
Um abraço, amiguinhos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Finalmente.

Soltaram minhas asas.
Olha ali, estou no meu céu azul.
É, pequeninos, aqui é bem mais legal.

Talvez eu mude minhas cores, minhas coisas.
Tudo que começa ruim, tende a ruir.
Não dessa vez.
Adeus pasárgada, não preciso mais de sonhos.
Tá tudo aqui já.

Quer dizer, quase tudo.
Mas ela sempre vai estar junto mesmo longe, prometo que vai.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Metamorfossa 2 (porque a 1ª é dos móveis)

Amanheci e não era eu. A banda tocando na janela, abri minhas asas e fui ver o que tinha acontecido.
Mas, logo no dia que metamorfoseei-me, resolveram que não tinha espaço para voar, e amarraram minhas tão sonhadas asas.
Caí logo no chão, sem entender bulhufas. Vieram me explicar sobre toda a economia do mundo, que as aves não faziam parte disso. O alpiste estava caro, as gaiolas de inverno também, já estavam devendo muito nas lojas e não daria pra voar muito.
As vezes eu penso que eu poderia até ser aquelas pombinhas na praça, comendo o que eu achasse, vivendo ali e só ali. Mas não me deixam, fecham a janela.
E agora esse quarto ficou muito pequeno pra mim, com todas essas penas no meu corpo. Que pena, sonhei tanto com isso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pipa

Estou o pó da rabiola.
A namorada vai pra longe,
não posso cursar a faculdade que passei,
não trabalho, não estudo, não toco mais musica,
nem escrever eu sei mais.
Sou o pó da rabiola.

É sério, turminha.
Sou um cego em um tiroteio.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O samba do até logo.

E eles passaram em frente a mim com ar de riso contido, acho que adivinharam minha situação e resolveram experimentar causar uma inveja. Deve ter funcionado, contrário não estaria escrevendo sobre eles.
Abraçados, no frio dessa mudança de estações, logo de manhãzinha, assim que saí do ônibus. E eu, atônito com tudo aquilo que estava acontecendo, logo me imaginei ali, um dia antes, na mesma calçada, me sentindo o maior do mundo, ao lado da maior do mundo. Agora já passou, minha semaninha da felicidade.
Segui, apesar do vento forte que bateu e acabou fazendo escorrer uma lágrima. Vento forte tinha outro nome antigamente, talvez chamavam de saudade ou algo assim, não me lembro sou novo. Daí, como quem tinha que continuar, continuei. Ali, na cidade populosa e eu: sozinho junto com mais tanta gente, e nem tinha porque procurar alguém, quem eu precisava eu não ia ver.
Estava deitada, ela, talvez chorando, dormindo, lembrando, não sei. Estava deitada onde já nos deitamos várias vezes quando não estavam olhando e abrimos sorrisos largos só por vermos que estavam ali os dois: a minha grande pequena e eu, e nada mais, na escuridão dos nossos pensamentos, trocando palavras que talvez nunca descrevam o tamanho que é aquilo tudo.
Se era essa rotina meio doida que criamos, agora vamos ter que mudar tudo denovo. Sacrifícios à parte, seremos felizes ao nosso modo. E eu estou tão feliz por ela, que até quase relevo a distância. Não relevo porque ainda dói bastante, mas quase relevo, pela alegria de ter visto tudo acontecer e participado.
É tudo doido ou tudo doído, um acento muda bastante aqui, mas não muda nada dentro de mim.
Obrigado, menininha, por ter me mostrado como tudo isso é bom.

Ana Lise com Bi, na tória.

Acho que sou da humanidade.
Odeio a má temática dos números.